Existem filmes inesqueciveis marcados pelo toque no coração, pela humanização pedagógica e pela intemporalidade tanto nos temas, como nas emoções que nos fornecem. Ikiru é, na minha opinião, o filme que representa tudo isso melhor. É um dos filmes mais belos e perfeitos de Kurosawa e do mundo. Encerra em si toda a condição humana metendo-a na boca de um velho doente de cancro com apenas seis meses de vida que irá descobrir nesse pouco tempo o significado de "viver".
Takashi Shimura é fenomenal, sidera pela sua prestação - na minha opinião a mais completa e terna que já presenciei -, deixa-nos de boca aberta perante o sofrimento psicológico que vive, pela saudade do tempo que passou e das vivências que terá de deixar para trás, quando partir defenitivamente.
Ikiru inicia-se com um raio-x do estômago de Kanji Watanabe, um velho chefe de secção das obras públicas, ao qual o narrador insurge dizendo que Kanji sofre de um cancro do estômago, mas ainda não o sabe. Ao mesmo tempo, ouvem-se vozes - tal como um coro grego - de queixumes de senhoras pedindo a construção de um parque infantil numa zona cheia de lama e lixo. Kanji é apático, oco, vazio, vive numa anestesia e surdez total procurando trabalhar viciadamente - como quase toda a população japonesa. Assim, as senhoras procurando resolver a situação destinada às obras públicas entram numa rede enorme burocrática atrasada e desorganizada levando à desistência de todo o esforço feito para a proposta de uma ideia.
No escritório de Kanji ouve-se também uma piada lida por Toyo, uma empregada sua. Dizia ela rindo como uma criança:"Nunca tiraste um dia de folga?", "Não." "Porquê? És indespensável no teu trabalho?", "Não, Eu não quero que eles descobram o que conseguem fazer sem mim." Kanji não percebe (ou nem ouve) e volta ao seu usual trabalho monótono de assinar papéis sem os ler e arquivar projectos esquecidos na gaveta poeirenta.
Eis que Kanji se informa do seu estado de saúde - note-se a cena do doente contando a Kanji os truques e mentiras dos médicos para não assustarem os pacientes que pouco tempo podem viver. A cena do apercebimento do reduzido tempo restante de vida da personagem principal, logo no ínicio, é só por ela tocante e assustadoramente constrangedora. Watanabe começa-se a tornar num vagabundo, num velho transeunte solitário com o seu pesado fardo: saber quanto tempo lhe resta para viver.
A falta de comunicação com o seu filho - por culpa do pai(?) - torna a compaixão pela personagem principal cada vez mais fácil e existente. Kanji ouve sem querer uma conversa do filho e da esposa em que esta comenta que com a pensão da morte do velho pai, poderiam construír uma nova casa. A frieza do filho - que numa remeniscência de Watanabe, não queria deixar o carro fúnebre que levava a sua mãe - é a demonstração de um homem dos negócios e do dinheiro. Frio, como era o pai, vendo as emoções e as pessoas como se fossem números, é óbvio que quando o pai lhe quer contar o que tem, ele fecha a porta do seu quarto e pede para este trancar a porta principal.
Por cima das honrarias do seu trabalho e da alienação consequente do dinheiro e das economias, é sozinho que Kanji chora descontroladamente por debaixo da cama o desconcerto com o mundo e com o seu passado mumificado.
O coração do nosso velhinho dilacera-se entre a auto-destruição e o questionamento da sua felicidade. Ele primeiro, desesperado, leva as suas economias e gasta-as de forma hedonista em saké, em mulheres, em clubs nocturnos - e note-se como estes são o lugar das massas, estando filmados de forma furiosa e abarrotada como uma prisão -, acompanhado pelo companheiro vestido de negro, o novelista mefistofélico. Já no Fausto de Goethe, o diabo comprava a alma do doutor idoso; em Ikiru, Kanji vende a sua alma pelo deleite e pelo prazer descabido, desastrado e suícida. No final das sequências magnificamente filmadas da boémia nocturna, é o ar enjoado e as lágrimas desesperadas do principal, entrecruzando com as cantigas melancólicas das mulheres da vida, que nos fornecem a segurança que todos aqueles ambientes americanizados - diga-se - são pouco saudáveis, e refiro-me, pois, a essa metáfora que é estar-se doente.
Depois de experenciada a descida aos infernos da vulgaridade corrupta da cidade negra, Kanji procura, como um cego, tacteando pelos passeios por entre as crianças o significado de viver. Aí cruza-se com a sua empregada Toyo, a mesma que lera a piada no princípio, cujo significado é uma das várias mensagens do filme. Toyo é a criança, a doce rapariga brincalhona, tímida e cristalina que desperta em Kanji o desejo de a fazer feliz. Conquista-se um pouco de felicidade, nestas cenas tão amáveis e que surgem após a tempestade.
A cena do café, uma das mais profundas e maduras da história do cinema, é desenrolada pela descoberta da felicidade. Kanji grita e desce as escadas da vida, enquanto na mesa ao lado se cantam os parabéns. Descobre-se que a nossa felicidade reside no facto de fazermos felizes os outros.
Só, mas determinado, surge um novo homem para além do medo de morrer. Watanabe volta ao trabalho e luta contra a burocracia do sistema do pós-guerra (e actual?), escrevendo um testamento pela sua nova obra - o parque de crianças pedido no princípio.
E, de um momento para o outro, somos informados da morte de Kanji pelo narrador. Situamo-nos no seu funeral, e as opiniões dos presentes surgem num espectáculo de remeniscências a qual é finalizada por um polícia que conta a sua verdadeira morte - desmascarando assim as histórias circuladas pelos seus patrões. Por entre o branco da tempestade de neve e os corredores de ferro, sobrevêm poesia visual quando se observa Kanji, sorrindo e chorando, cantando roucamente os seguintes versos:
A vida é breve.
Apaixona-te, doce senhora,
Enquanto os teus lábios ainda estão vermelhos,
E antes que tenhas frio.
Porque não existe nenhum amanhã...
Ninguém saí desta cena indiferente: a montagem, o trabalho de câmara, a representação e a música, todos eles (inter)agem no espectador como uma explosão metafórica desta vez da morte do amável senhor Watanabe. A homenagem ao grande homem é glorificada pelo parque onde as crianças são felizes e podem brincar - pois tal como em Yume ou em Hachi-gatsu no kyôshikyoku - a perda da infantilidade, da paz e do sorriso conduzem à alienação, à escolha do fácil e do imediato, da economia e da guerra, logo na destruição do que é humano.
Nota:9.5/10
Texto: http://retroprojeccao.blogspot.com
Quarta-feira, 23 de Maio de 2007
Viver (Ikiru, 1952), de Akira Kurosawa
Postado por
Estevão Augusto
às
19:58
Gênero, subgênero, tipo e década: Drama, déc 1950, longa-metragem
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